Ficcionalidade e semântica do texto literário
- Ana Gomes
- 21 de mai. de 2021
- 3 min de leitura
Teoria da Literatura é a argumentação científica ou filosófica da interpretação literária, da crítica literária, da História da Literatura e do conceito de Literatura no geral.
· Ficções não literárias
· Ficções mitológicas
· Ficções lendárias
Ficcionalidade é um conjunto de regras pragmáticas que prescrevem como estabelecer as possíveis relações entre o mundo construído pelo texto literário e o mundo empírico, manifestando-se textualmente em dois níveis:
- Nível da enunciação – o autor textual e o narrador não são co-referenciais com o autor empírico, produzindo textos que não dependem de uma situação atual
- Nível dos referentes textuais – não preexistem ao texto literário, não lhe são anteriores nem exteriores, sendo instituídos pelo enunciado do próprio texto
Os enunciados do texto literário também denotam e fazem referência, simplesmente “constituem uma ficcionalização do ato de denotar”, manifestam uma pseudo-referêncialidade, porque as condições e os objetos de referência são produzidos pelo próprio texto, e por isso mesmo a pseudo-referêncialidade identifica-se sob vários aspetos como auto-referêncialidade.
Objetos de ficção: objetos que não existem no mundo empírico, que não são factualmente verdadeiros. No entanto, por vezes podem ser mencionados objetos que já tenham existido no mundo empírico.
O código de alguns subgéneros literários, como o romance e o drama histórico, tem a representação de personagens que tiveram existência historicamente comprovada, onde, na obra literária coexistem com personagens apenas ficcionais, e de eventos historicamente ocorridos, que, naquele mesmo mundo se cruzam e misturam com ações ficcionais.
Quando alguém no seu dia-a-dia escreve no diário “Hoje fui de comboio a Évora”, acredita-se que esse alguém, jurídica e administrativamente identificável, situado num tempo e num espaço reais, viajando efetivamente de comboio, visitou de facto Évora. No entanto, quando lemos o poema de Álvaro de Campos, “Ao volante de Chevrolet pela estrada de Sintra, / ao luar e ao sonho na estrada deserta, / sozinho guio, guio quase devagar […]”, não podemos afirmar que o autor empírico, o poeta na sua existência real, sabia conduzir etc., pois tudo isso é verdade no mundo possível instituído pelo texto literário, tudo isto é somente verdade em relação ao eu textual e não em relação ao autor, considerado na sua pessoa física e não em relação ao autor considerado na sua pessoa física e social.
A intertextualidade funda e orienta a textualidade, os textos literários têm como referentes outros textos literários, estando sobre determinados, na sua génese, no seu desenvolvimento e na sua decodificação, por outras estruturas textuais.
No texto literário, com efeito, se não se manifesta uma função referencial idêntica à que se verifica noutros textos, também não se encontra totalmente obliterada tal função. A pseudoreferencialidade não anula a referencialidade ao mundo empírico, mas suspende-a, realizando uma époché (Ricoeur P.) no mundo e da referência imediata.
Considerando-se iteratividade a reprodução, na cadeia sintagmática, de grandezas idênticas ou comparáveis, situadas num mesmo nível de análise, entende-se por isotopia a iteratividade de classe, mas responsáveis pela homogeneidade do discurso.
O texto constitui um ato comunicativo onde acumula informação, em função da “dinâmica comunicativa” que deflui da intencionalidade e de motivações.
O início de um texto representa igualmente um elemento remático e catafórico de singular relevância na semântica textual.
O conceito de isotopia, proposto por Greimas ema vários dos seus estudos é definido como “um feixe de categorias semânticas redundantes, subjacentes ao discurso considerado” ou como “a interatividade, ao longo duma cadeia sintagmática, de classemas que asseguram ao discurso-enunciado a sua homogeneidade”.


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