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A Guerra da Coreia (1950-1953)

  • Foto do escritor: Ana Gomes
    Ana Gomes
  • 21 de mai. de 2021
  • 10 min de leitura

Resumo

Entre 1950 e 1953 trava-se um conflito armado entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, a Guerra da Coreia ou como Pyongyang se refere “Guerra da Libertação da Pátria” pois segundo a Coreia do Norte, foram os Estados Unidos e a Coreia do Sul que invadiram o seu território. Esta termina após um cessar-fogo e o estabelecimento de uma zona desmilitarizada que separa os territórios. A Coreia do Norte tinha como principais aliados a China e a União Soviética, a Coreia do Sul por sua vez tinha a ONU (EUA, Reino Unido, Austrália, entre outros).


Palavras Chave: Coreia do Norte, Guerra da Coreia, Coreia do Sul, Guerra Fria, Divisão da Península Coreana


Introdução

A Coreia foi governada pelo Japão até ao final da Segunda Guerra Mundial, com o bombardeamento das cidades de Hiroxima e Nagasaki e a rendição do Japão. Foi assim dividida a Coreia em 2 setores, a Coreia do Norte (República Popular do Norte) e a Coreia do Sul (República da Coreia).

A decisão da divisão da Coreia no paralelo 38 “foi tomada em decorrência do receio norte-americano de que a União Soviética, após a declaração de guerra contra o Japão, seis dias antes da rendição, pudesse avançar e ocupar toda a península” (Oliveira, 2005, p. 3). Mais do que qualquer outro relacionamento bilateral no mundo, o relacionamento Coreia – Estados Unidos deve ser considerado como um produto da Guerra Fria. Não somente seu caráter foi formatado pelos imperativos da Guerra Fria, sua própria existência da luta entre os Estados Unidos e a União Soviética como referencia Oliveira (2005, pp. 3-4) nas suas considerações.

No Norte, a influência soviética é bem recebida devido à prévia história de ambos os países (a resistência contra a ocupação japonesa, já no Sul as forças armadas americanas tiveram uma maior dificuldade em manter uma proximidade devido à falta de convívio prévio, o desconhecimento da língua, apoiando-se nos quadros da burocracia colonial e da força policial.

“Insatisfeitos com a ocupação norte-americana sucedendo a japonesa e com a divisão da península, o Comité para a Preparação da Independência da Coreia, liderado pelo centro de esquerda Yo Un-hyong tenta estabelecer um governo popular. No entanto, o comandante do Governo Militar Americano na Coreia do Sul, Jonh Hodge, reprime qualquer movimento popular, considerando-o de inspiração soviética.” (Oliveira, 2005, p. 4)

“A dinastia de Koryŏ, que dá o atual nome do país, foi a primeira dinastia a unificar a península coreana em 918” (Gleichen, 1921, p. 1). Constitui uma nação antiga que realizou “uma das revoluções menos conhecidas do Ocidente” (Vizentini & Pereira, 2014, p. 176) e a divisão da península por razões diplomáticas.

O país é então assim controlado pelas seguintes potências: China, Rússia, Japão e pelos Estados Unidos, o que condiciona a sua política externa como país unido e como país subjugado do Japão no passado, dividido por uma guerra civil e a rivalidade da Guerra Fria.

“Após derrotar a Dinastia Qing, a Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894-1896)” (Santos, 2018, p. 1), o Japão ocupa militarmente a Coreia, uma peninsula estratégica à esfera da influencia regional.

Foi em 1905 que o Japão assina um acordo com a Coreia, que retira a esta, todos os seus direitos diplomáticos e em 1910, com o tratado de Anexação Japão-Coreia, este assume a administração colonial da Coreia, ao que a população da Coreia se opunha vigorosamente.

Esta anexação implicou uma ditadura, alterando os costumes e tradições dos coreanos para se adaptarem aos japoneses, oprimindo política e culturalmente os coreanos através de medidas como a modernização de uma infraestrutura de transportes e administração, uma base industrial e mineradora, assim como Vizentini & Pereira (2014) aborda, o japonês torna-se a linguagem principal do país (começa a ser ensinada às crianças no ensino básico e torna-se também linguagem necessária no que conta a negócios), os coreanos são também forçados a alterar os seus nomes e adotar um nome Japonês, “o país foi usado como celeiro de grãos e de mão de obra. E também, como base industrial, para abastecer esforços de guerra. Sua geografia serviu de proteção contra as incursões americanas” (Castro, 2014, p. 834). A regência japonesa trouxe benefícios económicos substanciais, o aumento da agricultura e eliminação de proprietários ausentes, instala-se um parque de indústrias pesadas e uma rede ferroviária juntamente com novas instituições publicas segundo o modelo japonês. “Continuaram-se os esforços da alfabetização, iniciados na segunda metade do século XIX” (Castro, 2014). Em 1938, o governo colonial Japonês instaura um programa de trabalhos forçados, recrutando 2 milhões de coreanos para o exército e para força de trabalho.

Muitos nacionalistas coreanos fogem do país, criando um Governo provisório da República da Coreia na China em 1919, mas não consegue alcançar um reconhecimento internacional.

Durante a segunda guerra mundial, o Japão usa comida coreana, pecuária e os metais no reforço da guerra. “Em janeiro de 1945, os coreanos eram cerca de 32% da força de trabalho japonesa. Em agosto, quando os Estados Unidos lançaram bombas atómicas contra as cidades japonesas de Hiroxima e Nagasaki, cerca de 25% dos mortos eram coreanos.” (Santos, 2018, p. 2)

Mesmo após diversas tentativas de resistência por parte dos coreanos, tanto dentro como fora das fronteiras, os Japoneses mantiveram o controlo até ao final da segunda guerra mundial.


A libertação da Coreia

“Em novembro de 1943, numa conferência realizada no Cairo, Winston Churchill, Theodore Roosevelt e Chiang Kai-chek decidiram que a “Coreia se iria tornar uma nação independente após a Guerra.” (Santos, 2018, p. 2)

A península coreana saiu das mãos dos japoneses em agosto de 1945, após o rendimento do Japão na Segunda Guerra Mundial. A coreia acaba de se tornar uma vítima geopolítica das duas superpotências da época.

No final da guerra o exército vermelho ocupa uma boa parte do norte da coreia como estava estipulado no acordo com as potências ocidentais, detendo o seu avanço no paralelo 38, aguardando pela invasão americana do sul do país.

Na conferencia de Potsdam em 1945 é decidido pelos aleados, dividir a Coreia, sem qualquer opinião do povo coreano.

“Em dezembro de 1945, a Coreia era administrada por uma Comissão Americano-Soviética […]. Os coreanos foram excluídos de todas as decisões sobre o futuro do país. A comissão decide dar independência à península coreana em 1950, depois de cinco anos de ocupação.” (Santos, 2018) “A população coreana revoltou-se contra tais determinações. No Sul, foram reportados enormes protestos nacionalistas e alguns grupos políticos passaram a pegar em armas.” (Santos, 2018)


A divisão da Coreia

A ONU mostra uma vontade de avançar com eleições em toda a península, mas a URSS não aceita a proposta. Mesmo assim, a ONU avança e forma uma Comissão para supervisionar as eleições para uma Assembleia Nacional Coreana, mas a URSS mantém a sua posição e não permite a entrada da comissão no Norte.

“A incapacidade de realizar eleições livres em toda a península, em 1948, aprofundou a divisão entre os dois lados. […] Ambos os governos pretendiam ser o governo legítimo da totalidade da Coreia, e nenhum deles aceitava as fronteiras permanentes” (Santos, 2018).

Em agosto de 1948 o sul da península da coreia estabelece-se como República da Coreia, uma nação independente com uma economia de livre mercado e princípios democráticos. Durante a mesma época, a norte estabelece-se a República Popular da Coreia sob o comando de Kim Il-sung e pelos soviéticos. “Neste contexto, em dezembro do mesmo a Assembleia Geral através da Resolução 195 (III) incentiva a desocupação do território coreano pelas tropas dos Estados Unidos e da União Soviética criando a Comissão das Nações Unidas sobre a Coreia” (Santos & Passos, 2016, p. 28), tendo a intenção de uma reunificação apesar da dificuldade de negociação entre as potências.

Apesar da divisão, apenas a Républica da Coreia for reconhecida pela maioria das nações ocidentais, a República Popular da Coreia tinha apenas recebido o reconhecimento pela URSS e pelos seus satélites.

“Em cada parte do território, um tipo de governo havia sido instaurado em 1948. De um lado, um governo com fortes características estadunidenses e de outro, um governo comunista.” (Vizentini & Pereira, 2014).

Sygman Rhee [1] e Kim Il-sung [2] mostram a intenção de reunificar a Coreia segundo o próprio sistema de governo. Para isso, tornam-se comuns tiroteios e conflitos nas fronteiras. “O governo americano presumiu que os comunistas eram diretamente controlados ou influenciados por Moscovo. Assim, os EUA viam a guerra civil na Coreia como uma manobra de hegemonia dos soviéticos.” (Santos, 2018)

No fim de 1948, os soviéticos retiram o exército do Norte como estava previsto nos acordos com o oriente, posto isto, os Estados Unidos retiram também os meus militares do Sul. O que eles não sabiam era a preparação e o armamento que havia no Norte, deixaram assim as forças militares sul-coreanas despreparadas e mal-armadas.

A guerra torna-se mais um peão na luta pelo poder entre os Estados Unidos e a União Soviética. O paralelo 38 deixa de ser apenas uma demarcação territorial, para ser uma parede defensiva altamente fortificada.


O início da guerra

A guerra é declarada a 25 de junho de 1950 após uma invasão da Coreia do Sul por oito divisões norte-coreanas sendo a versão mais aceite sobre a sua motivação a de que a Coreia do Norte, com o apoio dos soviéticos, resolveu “agir antes que a Coreia estivesse irremediavelmente dividida. Este posicionamento tem como base a perceção da mudança na retórica contra Rhee, em maio de 1950, das acusações de buscar uma invasão do Norte, para a posição de que Rhee estava buscando a divisão permanente da Coreia. Cumings [3] defende ainda a ideia de que os líderes norte-coreanos estavam alarmados com a possibilidade de estabelecimento de potenciais laços económicos e militares entre a Coreia do Sul e o Japão.” (Oliveira, 2005)

Esta invasão inicia um “conflito sangrento e cruel que foi a primeira prova de força entre as ideologias opostas do consumismo e da democracia” (Santos, 2018)

Os Estados Unidos, em conjunto com as Nações Unidas entram na Guerra e atacam a Coreia do Norte.

Seul, a capital da Coreia do Sul, foi tomada pelas tropas norte coreanas e chinesas e em três dias ocuparam toda a coreia, à exceção de Busan e suas redondezas. “Mas uma nova ofensiva das tropas da ONU empurra as tropas chinesas e norte-coreanas de volta ao Paralelo 38, a linha imaginária que separava as duas Coreias. No entanto, os invasores resistiram, com as respetivas posições permanecendo inalteradas em mais dois anos de combates.” (Oliveira, 2005).

“Em dois meses, o exército norte-coreano controlou quase todo o sul, cercando americanos e sul-coreanos no perímetro de Busan […] duas semanas depois, as forças da ONU, comandadas por MacArthur, cruzaram a fronteira, buscando produzir um fato consumado que extrapolava a decisão da ONU […] até a invasão do norte, o número de mortos fora insignificante, e só então teve inicio o massacre que custou quatro milhões de vidas” (Vizentini & Pereira, 2014)

Em novembro de 1950, após advertências de que não tolerariam a destruição da Coreia do Norte, as “tropas chinesas entraram na luta derrotando as forças da ONU. A reação americana foi praticar uma política de terra arrasada, utilizando o napalm[4] e ameaçando lançar bombas atómicas. O país inteiro foi reduzido a escombros, enquanto os combates continuavam” (Vizentini & Pereira, 2014).

Em junho de 1953 foi assinado um armistício, porem não foi feito um acordo de paz definitivo, foi criada uma linha de demarcação militar estabelecida da fronteira entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte, uma fronteira criada pelos Estados Unidos e a união soviética antes mesmo da guerra, seguindo o paralelo 38, que “simbolizou que a guerra não acabou” (Oliveira, 2005).

A Zona Desmilitarizada da Coreia tem aproximadamente 4 quilómetros de largura, servindo como barreira entre ambas onde se mantêm as fronteiras altamente armadas.


O pós-guerra

A guerra resultou em grandes perdas: “3 milhões de coreanos mortos, 5 milhões de refugiados, 10 milhões de famílias separadas, 55 mil americanos mortos, 100 mil chineses mortos. A infraestrutura de comunicação foi destruída, a capacidade produtiva eliminada e quase todo o legado material do período de colonização foi destruído” (Masiero, 2000, pp. 5-6)

A divisão da península criou duas unidades económicas distintas. A Coreia do Norte possuía a maior parte dos recursos naturais e as indústrias pesadas, que foram desenvolvidas durante a ocupação japonesa. A Coreia do Sul possuía a maior parte dos recursos agrícolas e mão-de-obra, tendo concentrado o seu desenvolvimento industrial na manufatura de bem de consumo de massa orientada para a exportação, em especial indústrias de trabalho intensivas como têxteis, vestuário, calçados e alimentos como refere Pinheiro (2002, pp.199-200)

Assim, “a Coreia no Norte vai apresentar um forte crescimento económico, aproveitando-se da herança colonial japonesa e consequentemente voltada para a indústria pesada, enquanto que a Coreia do Sul direciona-se para um processo produtivo voltado à exportação, com o auxílio norte-americano e inserção no processo regional pelo Japão” (Oliveira, 2005).


Conclusão

Esta pesquisa e como consequente este trabalho, deu me gosto em fazer, deu-me outro ponto de vista sobre este conflito e sobre o porquê de toda a tensão atual envolvendo a região.

É um tema que sempre me deu curiosidade de pesquisar mais, gostava de ter falado também sobre o crescimento económico depois da guerra e sobre os desertores da Coreia do Norte. Acho fascinante como a Coreia do Sul se recompôs depois da guerra e de como agora é um país em expansão, a forma como nos anos 90 as exportações começaram a subir e como agora uma das principais fontes de rendimentos é a industria do entretenimento que tem cada vez mais ganho relevância no ocidente, tanto com a música como com os filmes e as series.

As tenções atuais, principalmente com os Estados Unidos e a Coreia do Norte, que parece nunca se dissipar é também um tema interessante neste contexto. O tiroteio que ocorreu recentemente na fronteira do paralelo 38, e o serviço militar obrigatório de 21 meses entre os 18 e os 28 anos na Coreia do Sul, apenas para homens e os 10 anos no mínimo, sendo incentivados a ficar por mais tempo entre os 15 e os 48 anos para homens e agora, devido à baixa natalidade, também para as mulheres.

[1] Syngman Rhee foi o primeiro Presidente da Coreia do Sul. É conhecido dentro e fora da Coreia como uma figura autoritária, com um governo marcado pela corrupção, má gestão e repressão contra a oposição política. [2] Kim Il-sung foi o líder da Coreia do Norte desde a fundação do país em 1948 até à data da sua morte. Exerceu o cargo de primeiro-ministro de 1948 a 1972 e de presidente de 1972 até à sua morte. Desde 1998, é o presidente eterno da Coreia do Norte. [3] Cumings, B. (1981) The origin of the Korean War: Liberation and the Emergence of Separate Regimes [4] O napalm é um líquido inflamável à base de gasolina gelificada, utilizado como armamento militar incendiário convencional.


Bibliografia

Bezerra, J. (2019). Causas da Segunda Guerra Mundial. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/causas-da-segunda-guerra-mundial/

Castro, C. (2014). Porque não fazemos como a Coreia? Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40362014000300011&lng=pt&tlng=pt

Gleichen, E. (1921). The permanent committee on geographical names. The Geographical Journal, 51 (1), pp. 36-43 Disponível em: https://webarchive.nationalarchives.gov.uk/20111221084420/http://www.pcgn.org.uk/North%20Korea-%20Land%20of%20the%20Morning%20Calm-%202003.pdf

Masieiro, G. (2000). Conglomerados Coreanos: das origens ao século XXI. Disponível em: http://www4.pucsp.br/geap/coordenador/processoreconciliacaocoreana.PDF

Oliveira, A. (2002). A política coreana na Ásia: aspetos políticos e militares. Brasília.

Oliveira, H. (2005). A Península Coreana: Proposições para a mudança. Disponivel em: https://www.pucsp.br/geap/coordenador/peninsulacoreana.PDF

Pinheiro, S. (2002). Coréia: visões brasileiras. pp. 199-200.

Santos, E. (2018). A "Guerra Esquecida" - Coreia 1950-1953. Disponível em: https://www.revistamilitar.pt/artigo/1339

Santos, M., & Passos, R. (2016). A Guerra da Coreia (1950-1953): um estudo sob a ótica do legado teórico de Edward Hallet Carr. Disponível em: http://www.bjis.unesp.br/revistas/index.php/ric/article/view/6348

Trentin, D. (2019). A política externa da China. Disponível em: https://www.politize.com.br/politica-externa-da-china-entenda/

Vizentini, P., & Pereira, A. (2014). A discreta transição da Coreia do Norte: diplomacia de risco e modernização sem reforma. https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-73292014000200176&lng=pt&tlng=pt

 
 
 

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